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A TV, o tempo e os ventos da nova ordem digital - 1
15/02/2008
Israel do Vale - O Tempo
Depois de invadir a Internet, a televisão estende seus tentáculos até o celular, mundo afora. E se é possível constatar que ainda não se verá novela massivamente por uma tela de 2,5 polegadas na semana que vem, também é certo que isso é inevitável. Apenas questão de tempo.

Os últimos dias foram pródigos em novidades que mostram o impacto da nova ordem digital sobre os hábitos do telespectador. E a televisão aberta vai ter que se renovar [e muito] se quiser manter o status [e a influência] que conquistou neste meio século de vida no Brasil. [Se é que isso é possível e, sobretudo, desejável...]

Um dos indicadores mais concretos de que os ventos começama soprar para outro lado vem do Ibope. Não chega a surpreender quem monitora o batimento cardíaco do mercado, mas não deixa de ser significativo: o público mais jovem passa cada vez menos tempo na frente da TV.

Mais: o segmento A e B da população [uma classificação, para mim, detestável, porque considera apenas o poder aquisitivo e não o da inteligência...] se afasta progressivamente dos canais abertos [os gratuitos].

Pelo perfil de ambos, a tendência mais imediata seria de supor que o vilão [ou herói?] em questão é o mesmo: a Internet. E vá lá: ele tem sim sua parcela de culpa. Mas não só.

O bombardeio contra a televisão aberta vem dos anos 90 no Brasil. Começou praticamente dentro de casa, quando os principais grupos de comunicação do país resolveram investir na TV por assinatura - e quase acarretou a implosão do império das Organizações Globo, pelo endividamento que isso gerou.

A TV paga demorou a deslanchar. Avançou primeiro, previsivelmente, entre seres humanos de vida econômica estável, à caça de algo menos estúpido e apelativo para se ver. Com o tempo, o movimento se expandiu para outros recortes sociais. Não pelo conteúdo, mas pela qualidade da imagem - para driblar chuviscos e fantasmas. E estagnou-se.

Só saiu do lugar de dois anos pra cá, por força dos chamados "triple play", os pacotes de Internet banda larga, telefone fixo e TV a cabo - oferecidos a um precinho mais camarada que o da compra picadinha.

Neste sentido, a televisão perdeu [ou ganhou?] dela mesma. Bingo para os negócios. Mas do ponto de vista dos hábitos, zero a zero.

A médio prazo, contudo, o impacto na mudança do perfil do usuário da TV paga pode ser significativo. O assinante dos canais pagos é a elite do consumo e da dita formação de opinião. Por isso, talvez, haja uma resistência tão grande dos grupos que controlam a programação [majoritariamente multinacionais] à disseminação de conteúdos nacionais [me parece absurdo que o Canal Brasil só esteja disponível no pacote mais caro, por exemplo].

Pegue seu controle remoto e procure o país em que você vive pelos canais. Ou melhor: procure algo que não seja europeu ou, sobretudo, norte-americano.

Há um exemplo bastante revelador do subtexto [negocial? ideológico?] do que está no ar. Um grupo de profissionais competentíssimos desenvolve há cinco anos uma experiência chamada TAL, sigla de TV América Latina.

É um projeto brasileiro de intercâmbio de conteúdos com emissoras e produtores independentes latinos. Tem sido bancado [em 2/3 dos custos] por recursos próprios [de um visionário pernambucano do setor petrolífero que, embora na linha de frente da operação, prefere se manter à sombra, do ponto de vista da projeção], com aporte adicional do Ministério da Cultura.

A TAL reúne, hoje, um banco de vídeos com cerca de 3.000 horas de programas, em português e espanhol - pelo menos um terço disso, já traduzido e legendado. Só para se ter parâmetro, 300 horas de conteúdo são suficientes para manter um canal no ar, na lógica de reprises mil adotada pela TV paga.

Teria iniciado suas operações públicas há dois anos, em parceria com uma emissora mexicana - responsável por levar o sinal para o satélite. Teria. Esbarrou nos entraves políticos, a partir de uma mudança de bastão no governo de lá que jogou o acordo por terra. Lastimável, mas é a vida.

O que é de espantar é que, nummomento de ebulição de todos os mercados, quando conteúdo [audiovisual, musical] é "ouro em bit" e as palavras de ordem no ambiente das mil janelas que se abrem são agregar, empacotar e colocar em circulação, nenhum projeto [de televisão, Internet ou celular] tenha abraçado a idéia.

Pior: no afã [afã é lindo, vai?!] de dar visibilidade para um material selecionado [com absoluto rigor] a partir de imersões no acervo dos parceiros [originários de todos os países de língua espanhola], a TAL chegou a cogitar [mais: fazer uma proposta] de pagar à principal [numericamente falando] operadora de TV por assinatura do país [leia-se, a NET] para que ela carregasse o canal. E a resposta foi [acredite!] NÃO.

Que a televisão em geral não está nem aí para temas como diversidade cultural ou o interesse do cidadão não é novidade. Mas fechar-se para um manancial inédito e riquíssimo de conteúdo que, evidentemente, poderia trazer charme e argumentos adicionais para os pacotes de conteúdo da TV paga me parece assustador. Incompreensão, será? Não creio.

Haveria interesse do telespectador? Como saber? O que a gente conhece dos nossos vizinhos latinos, afinal? E como conhecer se não circula? Do ponto de vista dos negócios [globalizados], não seria um belo tubo de ensaio para a expansão [potencial, ao menos] da operação para outros territórios?

Celular e Internet precisam [e prometem!] mesmo sacudir [desestabilizar, implodir, reconstruir] a lógica em vigor na televisão. [Dá só uma espiada no site da TAL pra entender do que eu falo: www.tal.tv.]

O início recente da operação em português do YouTube Mobile [versão para celular do principal site mundial de vídeos] ou de seu valiosos equivalentes locais [caso do Videolog, no Brasil] e os novos dispositivos móveis para recepção de televisão apresentados esta semana, em Barcelona, no Mobile World Congress, mostram que este trem começa a entrar nos trilhos [das infovias digitais de vídeo]. E quem ficar dormente...

Israel do Vale, 40, diretor de programação e produção da Rede Minas