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A TV, o tempo e os ventos da nova ordem digital - 2
23/02/2008
Israel do Vale - O Tempo
Acredite: o futuro da televisão está no celular. Ou melhor: de certa televisão. Não aquela que é signo da pasmaceira, do cidadão passivo que se estatela na poltrona em frente e fica lá, vegetal - e quando muito boceja e aperta o botãozinho do controle remoto para mudar de canal.

Falo da televisão que virá. Aquela que respira e pulsa, em que se verá o que não há hoje: a vida miúda e sem glamour, o anti-celebridismo, o assunto que só interessa a meia-dúzia de pessoas, as pequenas angústias comunitárias, a dor soluçada de amor, o [pavoroso e temido] espetáculo arrastado do tempo cotidiano.

Uma televisão customizada, para cada um. Feita aos solavancos, plena de surpresas, em contraposição a esta coisa certinha, sem cor nem cheiro, que toma conta dos canais em geral. Falo da televisão cidadã, vitrine da vida vivida [e não encenada], apropriada por quem tem fome de dizer e por quem apenas quer lembrar que existe.

É esta a TV que me interessa. A do imprevisível e do imponderável, na contraface da farsa que se tem - em que o repórter [com seu gestual firme e oco, as mãos na altura da cintura] pergunta o que alguém "que não ele" pensou ou formulou, o apresentador [terno impecável, sorri tanto para chamar a reportagem sobre o trânsito como para a do animalzinho que nasceu no zoológico] lê um texto que não saiu de suas mãos [e sobre o qual, na média, ele não tem idéia do que signifique], o câmera [preocupadíssimo com a hora de ir embora] enquadra o personagem no centro do quadro, ajusta o foco e não está aí pra quem seja aquele ser humano que lhe pediram para gravar.

Falta imaginação na TV em geral. E ousadia, realmente, é artigo em extinção. Vem daí a minha profissão de fé na capacidade do aparelho celular [e, sobretudo, da TV digital, se um dia deixarem que ela seja o que pode] implodir a lógica e oxigenar a linguagem e o temário.

Haverá, sim, sabemos todos, um pedágio a ser pago, do ponto de vista do hábito. A televisão que virá nasce das mãos de quem, graças aos céus, vê cada vez menos televisão. Falo, evidente, da geração digital.

É coisa para nossos filhos, não para nossos pais. Coisa para quem usou o mouse pra brincar de carrinho e acha muito natural fazer cinco coisas [ouvir música, disputar um game online com um cara que está em outro continente, bater-papo no msn, postar um scrap no orkut e, digamos, escrever poesia] ao mesmo tempo.

É para esta geração que o mercado do celular [esta incubadora de comportamento] e produtores atentos de conteúdo apontam, cada vez mais. Pesquisa recente realizada pela Ericsson e o canal internacional de notícias CNN traduz a tendência em números. Segundo o estudo, a oferta de serviços de televisão é o grande objeto de desejo de um terço dos usuários do aparelhinho.

É o que a empresa de televisão por assinatura TVA anunciou na última semana, estendendo aos celulares o que já estava disponível para PCs, notebooks e PDAs. O serviço funciona tanto por meio das operadoras de celular como via Internet banda larga, desde que se disponha de conexão sem fio.

Isso, por si, não muda a televisão. Mas impacta a lógica. E abre janelas para o que virá. Pra começar, no terreno dos hábitos, não vai ser simples assistir na dita "quarta tela" [a "televisinha"] o que se viu durante décadas em pelo menos 14 polegadas - tamanho, aliás, da maior parte dos televisores em uso no país.

Mas é fato que, se de um lado os aparelhos de TV ocupam cada vez mais espaço na parede [o que vai ser dos quadros, deus do céu?!], as telas de computador e de celular se orientam pelo vetor inverso. Curioso notar, por exemplo, que os laptops estão cada vez menores, quando a tela do celular cresce a cada novo aparelho multimídia. Para um e outro há limites, claro. Mas até chegar-se a parâmetros universais, vai tempo ainda.

Significa que produtores de conteúdo terão que rever o processo de criação - desde o fato elementar de que não adianta enquadrar nada em plano geral para ser visto nas 2,5 polegadas da telinha do celular até restrições razoáveis, nas atuais circunstâncias, para o uso de legenda.

A transmissão do conteúdo audiovisual mais apelativo [novela, notícias, música, futebol], de certa televisão do futuro do pretérito, é inevitável nesta fase inicial. E se alastrará rapidamente - inclusive no Brasil, com a expansão da tecnologia 3G, de performance [rapidez no tráfego de dados, definição de imagem] duas ou três vezes superior à que é usada hoje no país.

É o que mostram os aparelhos apresentados semana passada em Barcelona no Mobile World Congress - maior evento do mundo no gênero, voltado para usuários da tecnologia GSM, utilizada por 2,5 bilhões de seres humanos [nada menos que 85% dos celulares em operação no planeta].

O celular como dispositivo móvel para assistir televisão é a melhor porta de entrada para se alcançar o estágio que realmente interessa: o celular como instrumento de produção colaborativa de conteúdo. E a CNN mostra a acolhida que isso tem por meio do seu iReport, uma solução para a postagem de imagens produzidas pelo próprio usuário, em operação desde 2006.

Em um ano, o serviço recebeu nada menos que 50 mil mensagens [foto e vídeo], de 189 países diferentes. Não é tanto, se se considerar que, apenas nos EUA, há cerca de 11,7 milhões de usuários de vídeo no celular.

O fundamental, enquanto tendência, é enxergar a relação que o usuário estabelece com o meio. Pelo estudo Ericsson/CNN, metade dos pesquisados utiliza a ferramenta uma vez por semana; um em cada quatro, no entanto, já faz uso dela todo santo dia.

A faísca está lançada ao vento. Se for para esperar sentado, ao menos coloque seus óculos de amianto.