TV na telinha
12/06/2008
Silas Scalioni - Estado de Minas
Canais de televisão aberta exibidos gratuitamente no celular podem transformar próximas gerações de aparelhos em xodó do público. Primeiras experiências já começaram em BH
Imagine poder assistir ao último capítulo da sua novela preferida em um bar, na companhia dos amigos, e não precisar sequer desviar os olhos da mesa. Ou acompanhar o noticiário de um canal de TV no meio da rua, dentro de um ônibus ou no metrô, a caminho do trabalho. Ou mesmo ver os lances daquela imperdível partida de futebol enquanto faz uma saudável caminhada.
Possibilidades como essas começam a ser realidade. Belo Horizonte é uma das três cidades brasileiras que já têm TV digital, além de São Paulo e Rio de Janeiro. E, como a tecnologia de telefonia móvel de terceira geração encontra-se em franco desenvolvimento no país, a capital mineira viu abertas as portas para ter também a TV digital na tela do celular.
As primeiras experiências começaram na há alguns dias, possibilitadas por uma parceria da Samsung – que recentemente lançou no mercado nacional o primeiro celular 3G que suporta sinais digitais do padrão brasileiro – e a Vivo, que de forma pioneira passa a comercializá-lo e a oferecer sua rede para a transmissão das imagens.
TESTE A TV digital teve seu padrão definido no Brasil há menos de um ano e, somente há pouco mais de um mês seu sinal começou a ser distribuído em Belo Horizonte. Paralelamente, a terceira geração de telefones celulares só começou a se efetivar no país depois da realização dos leilões de freqüência no fim de 2007, quando então as operadoras puderam realmente investir na tecnologia e iniciar o desenvolvimento de seus primeiros serviços de telefonia 3G, que começaram a ser oferecidos nos primeiros meses deste ano.
Tudo isso convergiu para que já seja possível assistir TV no celular, em relativo pouco tempo de vida das duas tecnologias no Brasil. Claro que se trata de um serviço ainda cheio de limitações. Em Belo Horizonte, por enquanto estão disponíveis os sinais de apenas duas emissoras de TVs abertas, que já retransmitem sinais digitais.
A previsão, entretanto, é de que até o fim do ano os demais canais locais passem a transmitir também digitalmente. Vale lembrar que a implantação da TV digital no país prevê a liberação dos sinais dentro de um cronograma que atenderá primeiro as capitais, depois cidades com mais de 200 mil habitantes, até abranger todo o território brasileiro, finalizando o processo no ano de 2016.
O Informátic@ testou, por quase duas semanas, o modelo de celular V820L e seus serviços, especialmente a recepção das programações dos canais abertos disponíveis. E foi às ruas ver a reação de usuários diante da novidade, que provocou, principalmente, muita surpresa.
"Tinha ouvido falar de TV digital no celular, mas não sabia que já era uma realidade para nós. O aparelho tem imagem melhor do que a de DVD, design e tamanho adequados. O preço é menor do que eu imaginava, achava que um equipamento assim custaria por volta de R$ 3 mil. Comprei meu telefone, que considero ótimo, porque seus recursos de vídeo são muito bons, mas vendo esse agora e comparando imagens – mesmo levando em conta que as de um são digitais e as do outro são de gravações de vídeos –, a diferença é enorme. O único problema de um aparelho assim numa cidade como Belo Horizonte são os assaltos. Não dá para usá-lo em qualquer lugar, pois se a gente fica desnorteado desejando um celular assim, imagine o que os ladrões não fariam para consegui-lo." Davison Gomes Costa – Estudante
Qualidade de cinema
Aparelho tem boa recepção de imagens e fácil manuseio
O que mais chama a atenção do serviço é a qualidade das imagens recebidas, do mesmo nível das exibidas por um bom DVD em um televisor de alta definição. Imagens de cinema, como se diria tempos atrás. Claro que, por estarmos ainda em início de implantação das tecnologias, os dois canais exibidos não pegam ainda em algumas partes da cidade, que os especialistas chamam de zonas de sombra, problema que será solucionado à medida que novas antenas retransmissoras forem sendo instaladas. De resto, não há do que reclamar.
A portabilidade é um dos fundamentos da tecnologia digital para TV. E nisso o aparelho funciona sem problemas dentro das áreas de cobertura. Andando de carro pela cidade, a recepção das imagens continua perfeita, sem qualquer tipo de interferência. Muitas vezes isso ocorre até sem o uso da antena, que fica embutida na lateral direita superior do equipamento. Quando ocorre algum problema de recepção, durante os deslocamentos, quase sempre é porque a gente esquece de puxar a pequena antena retrátil. Imagens de TV digital não apresentam fantasmas ou distorções. Pegam nitidamente ou não pegam. Quando existe um problema, como essas zonas de sombra, a imagem simplesmente congela no último quadro exibido.
A facilidade de manuseio do V820L é também uma das boas coisas do equipamento, que segue a linha de descomplicar a vida do usuário, adotada já há algum tempo pelos fabricantes. Seu menu é simples e intuitivo, além de atrativo. Para acessar a TV, basta selecionar a opção “Multimídia”, depois o quadro “TV”, e posteriormente, “Assistir TV”. Abre-se então uma listagem de todos os canais à disposição. No caso de Belo Horizonte, aparecem vários espaços (em linhas) com a palavra Vazio e apenas os dois com o nome das emissoras que já oferecem o serviço. Os lugares vagos serão preenchidos à medida em que novos canais entrarem em operação.
Também no menu o usuário pode escolher o canal que deseja, bastando ir em “Opções” e depois em “Selecionar Canais”. Nas laterais da tela principal existem também teclas que permitem mudança de estação e alteração de som. Por falar em som, este atende apenas razoavelmente no seu modo natural – apenas com os alto-falantes – e muito bem com os fones de ouvido.
E os canais fechados?
Essa pequena experiência com o aparelho levanta questões que têm, desde já, respostas claras. Aonde iremos chegar com isso? Num futuro próximo, a TV digital no celular, seguindo esse rápido desenvolvimento já demonstrado, deverá se tornar item obrigatório no dia-a-dia do usuário. Se com poucos meses de implantação já nos permite essa vivência, imagine só quando não existirem mais zonas de sombras e todos os canais abertos estiverem disponíveis. Indo mais adiante, as TVs por assinatura não vão ficar atrás e, de alguma forma, em conjunto com as operadoras de celular, oferecerão seus canais. Assim, uma pessoa poderá fazer, por exemplo, uma viagem com o celular conectado na emissora que desejar. Desde que não esteja dirigindo, claro.
Importante lembrar que o usuário não paga nada para ter TV aberta digital no seu celular. Esse, afinal, foi um dos principais argumentos levantados pelos defensores do padrão japonês, adotado com adaptações pelo sistema brasileiro, contra o rival europeu, defendido particularmente pelas operadoras de celulares. Quanto às transmissões de canais fechados, trata-se de uma questão a ser definida pelas empresas. O mais provável é que ofereçam, num futuro próximo, aos seus tradicionais assinantes opções para receber programações também no celular, mediante pagamento de alguma taxa.
A corrida já começou
Samsung e Vivo saíram na frente, mas outros fabricantes e operadoras já estão de olho no filão da TV no celular. A Claro aposta inicialmente em um modelo híbrido com conteúdos de TV aberta (transmitido via TV digital) e por assinatura (pela rede da operadora, como o serviço Idéias TV). Segundo a empresa, há também espaço para que o celular, pela própria natureza do aparelho, seja mais do que um repetidor de canais tradicionais e se consolide como um veículo de comunicação primário, com programação e linguagens próprias.
A TIM adotou o aparelho da Samsung e diz estar aberta a novos modelos. A Oi não conta ainda com o serviço de TV digital e nada adianta sobre planos futuros.
Entre os fabricantes, a Semp Toshiba é a que está mais próxima da Samsung. Seu modelo CTV41 também exibe canais da TV aberta, que já re-transmitem sinais digitais, e está previsto para chegar ao mercado mineiro nos próximos dias. O aparelho tem tela de alta definição do tipo touch-screen, reconhecimento de escrita, câmera de 2MP, MP3 player, conexão bluetooth e preço de R$ 1,1 mil para plano pós-pago e de R$ 299 a R$ 899 para planos pré-pago.
A LG, por meio de sua assessoria de imprensa, só adianta que a previsão para oferecer o produto é no segundo semestre. Já a Nokia ressalta que, embora não tenha nenhum desenvolvimento para o padrão brasileiro, vai avaliar a demanda.
A Sony Ericsson, cujos celulares se destacam por sua capacidade na área musical, revela que ainda não conta com produtos que suportam TV digital devido a questões técnicas e de adaptações, mas que vê o assunto com bons olhos, devendo apresentar novidades na área já no próximo ano. Segundo seu gerente de Produtos, Everton Caliman, a empresa continua investindo com maior ênfase no desenvolvimento de aplicativos musicais diferenciados. “Lançamos recentemente um modelo que basta ser levantado ou abaixado para ter o volume da música modificado. Nosso foco principal continua sendo música”, assegura.
Comprar ou não comprar
O V820L foi inteiramente desenvolvido com tecnologia nacional pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Samsung em Campinas. Disponível com plataforma 3G, o aparelho apresenta display duplo e giratório em OLED – tecnologia que oferece alta qualidade de imagens –, e acessa a internet com downloads e troca de arquivos em alta velocidade em rede UMTS. Conta ainda com duas câmeras, uma com resolução de 2MP para a captação de imagens e outra, VGA, para a realização de vídeo-chamada, que, por sinal, é um dos benefícios mais atrativos da telefonia 3G. Ou seja, o usuário pode conversar com outro vendo (e sendo visto) a imagem do interlocutor, desde que ambos tenham celulares de terceira geração.
Mais do que isso, o novo equipamento tem ainda MP3 player, memória interna de 25MB expansível por cartão microSD, conexões bluetooth (sem fio) e USB (para sincronizar com o PC) e o recurso modo off-line, que permite operar funções multimídia com o telefone desligado. São serviços já característicos dos bons telefones do mercado e que funcionam ainda melhor no 3G recém-lançado.
E você, compraria um celular assim? Isso depende bastante do perfil do usuário, do seu poder aquisitivo e de como ele se motiva diante dos lançamentos. Uma análise superficial de fatos junto com um pouco de prudência são indicativos claros de que sempre é bom esperar um tempo antes de sair correndo atrás de uma novidade. Isso porque novas tecnologias vivem em evolução. Assim, um produto lançado hoje pode estar ultrapassado poucos meses depois, principalmente quando outros fabricantes passam a investir no segmento. Outro fator a se levar em consideração, no caso do telefone com TV digital, é que o serviço está ainda em seu início e muita coisa ainda vai acontecer com o andar dos meses.
A favor de quem pretende comprá-lo de imediato está, principalmente, o fator desejo. Dificilmente alguém que conhece o aparelho e tem a oportunidade de ver suas imagens em qualquer lugar não se sente tentado a adquirir um no mesmo instante. O preço, também, não é nenhum grande obstáculo para quem gosta de investir em tecnologia. Nas lojas, sem qualquer subsídio, custa R$ 1.499, que é um valor próximo de outros telefones que estão no mercado. Ou seja, pagando praticamente o mesmo dos top de outras linhas, tem-se um 3G com todas as funções dos demais e ainda com TV digital. No caso de comprá-lo com subsídio, a Vivo o oferece por até R$ 499 integrado aos seu pacotes de minutos e tráfego de dados.
Para quem pode investir em um bom aparelho, portanto, não é nada exagerado e sem propósito comprar um celular assim agora. Mesmo com as limitações atuais do serviço.
Reação
O Informátic@ foi às ruas para testar a novidade. Veja o resultado:
“É muito interessante esse aparelho. Não sou daqueles que saem correndo atrás de uma novidade logo que são lançadas, mas esse celular, com certeza, eu compraria. Só não o faço porque é mais prudente esperar os preços caírem, já que toda vez que uma novidade chega ao mercado o custo é sempre bem maior do que algum tempo depois. Sou bastante a favor de evolução tecnológica, desde que represente um ganho de vida para a gente e, sem dúvida, esse equipamento se enquadra nesse pensamento. A imagem que retransmite é perfeita. Usando fone de ouvido, com certeza, o aparelho pode se tornar um companheiro inseparável.” Francelino Carlos de Souza, Funcionário Público
“Acho legal esse avanço da tecnologia, mas até certo ponto, pois muita coisa importante estamos deixando para trás em nome da evolução. Até a programação de televisão já está à disposição no celular. As coisas estão ficando muito fáceis, demandando pouco esforço da gente, e isso compromete certos valores. Não sou do tipo de pessoa cujas novidades sobem à cabeça, mas não dá para negar que esse aparelho é muito interessante. O celular que tenho, e que uso basicamente apenas para me comunicar, me atende muito bem. Por isso, apesar de reconhecer que se trata de um equipamento sedutor, por enquanto não o compraria. No futuro, com o avançar das necessidades, quem sabe?” Carla Alexandra, Relações Públicas
“É fantástico! Aonde iremos chegar daqui a alguns anos? Pelo jeito, não conseguiremos fazer mais nada sem o celular. A imagem é excelente e a forma de manusear, muito simples. Custa cerca de R$ 1,5 mil sem subsídios da operadora? Podia jurar que custava mais. O badalado iPhone, que não conta com essas funções, custa mais que isso. Só de ver e mexer rapidamente no equipamento, fiquei entusiasmada e já me deu uma vontade incrível de comprar um imediatamente. Fiquei realmente encantada com a qualidade da imagem, com a facilidade e rapidez com que conecta os canais e, além de tudo, sem qualquer custo adicional para assisti-los. Qual será o próximo passo dessa tecnologia tão instigante?” Suzana Albano, Administradora de Empresas
“O valor dele é aproximadamente R$ 1,5 mil? Achei o celular muito legal e se o preço fosse um pouco mais razoável, em torno de R$ 700, não hesitaria em comprar pois é, para mim, uma das melhores novidades do ano. Sou daqueles que acha que a tecnologia contribui e facilita muita nossa vida, e esse aparelho representa bem isso. A nitidez da imagem retransmitida é impressionante. Além disso, tem um tamanho adequado, um design bonito. Vou esperar um pouco os preços diminuírem para entrar firme na era da TV digital portátil.” Carlos Eduardo da Silva, conferente de estoques
Novidade para ser discutida
O diretor do Instituto de Educação Continuada da PUCMinas, engenheiro eletricista com mestrado em computação Marcos André Silveira Kutova, lembra que a TV no celular, apesar de ser uma interessante novidade no Brasil, já se encontra bem mais avançada em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 10 milhões de usuários de telefonia móvel são assistentes regulares de televisão no aparelho. No Japão, o serviço já é usado com mais freqüência desde 2005.
Como o assunto é mesmo novidade por aqui, segundo ele ainda há muito o que se discutir. Será que a transmissão de TV no celular deve ser um serviço reservado às operadoras de telefonia móvel ou às emissoras de TV? “É provável que muita gente se lembre que, há alguns anos, o governo reservou as conexões à internet aos provedores de acesso. Com isso, quem acessava a rede via cabo tinha de pagar mensalidades do provedor, mesmo que não precisasse desse serviço. Devido ao potencial lucrativo da TV móvel, as disputas nos bastidores de Brasília já começaram”, avisa.
Existem hoje três alternativas para assistir à TV nos telefones celulares: por meio do sinal analógico convencional da TV aberta, pelo recém-lançado sinal digital, ou por intermédio de serviços das operadoras. “No primeiro caso, o celular funciona como uma das tradicionais TVs portáteis. Ele tem um sinal de qualidade mais baixa, é mais sujeito a interferências e só sintoniza canais da TV aberta. É importante lembrar que os vários celulares à disposição no mercado, e que se dizem preparados para TV digital, recebem, hoje, apenas o sinal analógico”, diz.
Os celulares que recebem sinal digital também estão limitados à programação da TV aberta, mas a qualidade de áudio e de imagens é muito superior. “O problema é que esses aparelhos são bem mais caros”, ressalta Kutova. A terceira alternativa é assistir à TV por meio de serviços das operadoras, para os quais se paga pelo tempo de conexão. “Como isso é novidade, a forma de cobrança ainda não é homogênea, mas é provável que as operadoras sigam o modelo comum no setor: a cobrança de uma franquia por algumas horas mensais e uma taxa extra para cada hora que exceder a franquia. A vantagem é poder assistir tanto a programas dos canais internacionais quanto vídeos sob demanda”, revela.
O diretor do IEC salienta que quem decide comprar um celular com TV digital hoje deve saber que está adquirindo uma tecnologia no momento exato de seu lançamento, e que esse fator oferece sempre dois riscos: um de pagar mais caro – já que o preço de novidades tecnológicas é sempre, pelo menos, três vezes superior ao valor que terá poucos anos depois –, e o outro de obter algo que se poderá se tornar rapidamente obsoleto, já que o mundo da tecnologia evolui a cada dia. “A história mostra que o mais sensato é esperar perto de uns dois anos para embarcar nas grandes novidades. O problema é segurar a ansiedade até lá.”
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