Interatividade na TV começa a aparecer
01/09/2008
Rodrigo Martins - Link Estadão
Em evento, emissoras exibem resultado de seus testes preliminares; estréia da tecnologia pode ocorrer até o fim do ano
A tão propalada – e desconhecida – interatividade na TV digital finalmente deu as caras. Ainda não está no televisor mais próximo a você, mesmo que tenha um decodificador. Mas, na semana passada, o que era só uma promessa ganhou os holofotes e pôde pela primeira vez ser conferido de fato. Pelas projeções mais otimistas, deve estrear até dezembro.
Na Broadcast&Cable, evento que rolou entre quarta e sexta-feira e reuniu emissoras, fabricantes e acadêmicos, dezenas de televisores LCD e plasma espalhados pelo Centro de Exposições Imigrantes, na zona sul, exibiam os testes de interatividade de Globo, Record, SBT e Band. Os controles remotos, necessários para experimentar, eram disputados.
Pela interatividade, o telespectador pode acessar um menu transmitido pela emissora juntamente ao sinal de TV. A Globo, por exemplo, exibiu um relativo à Olimpíada: era possível visualizar o quadro de medalhas atualizado, o calendário dos jogos e notícias. A navegação é muito parecida à do PC, por ícones. Só que, para acessar cada opção, ao invés de mover o mouse, usam-se as teclas do controle remoto.
O SBT exibiu um menu com previsão de tempo e notícias minuto a minuto sobre política, economia, internacional e esportes. A Record apresentou receitas culinárias e mapa com a situação do trânsito em São Paulo. Já a Band tinha uma enquete sobre quais deveriam ser as prioridades dos candidatos à prefeitura.
Com os testes, as emissoras começam a planejar sua interatividade. O SBT quer ter um “portal” de serviços. “Será como a primeira página de um site. Iremos mudar constantemente. Em uma eleição, por exemplo, poderemos informar como anda a apuração. O telespectador acessa quando quiser”, diz o diretor de tecnologia da rede, Roberto Franco.
A Record, por outro lado, planeja ter conteúdo ligado aos programas que estejam no ar. “Não é saudável ao programa competir com outro tipo de informação. A TV não é internet”, opina o diretor de tecnologia da emissora, José Roberto Amaral.
Já a Globo estuda formas menos “intrusivas”. “O formato com mais ‘cara’ de TV é o de colocar ícones na lateral da tela. Quando o telespectador clica, vê dados como as estatísticas de uma partida de futebol, por exemplo, sem modificar a exibição do jogo na tela”, conta Daniel Domingos, da Globo.
E QUANDO VAI CHEGAR?
Se os testes das emissoras chamaram atenção no Broadcast&Cable, a pergunta que não queria calar era “quando a novidade vai estrear?”. Falta, primeiro, o receptor compatível começar a ser vendido. A maioria dos palestrantes evitava falar em prazos. O discurso era de que seria em “muito, muito pouco tempo”. Só os pequenos fabricantes Visiontec e DTI, na área dos estandes, anunciavam que iriam lançar em dezembro seus modelos com Ginga, o software da interatividade.
O Ginga já está pronto. A demora para sua estréia se deve a uma questão de licenças de uso. Uma da metades do software foi totalmente desenvolvida no Brasil e não tem impedimentos. Já a outra – que permitiria aos aplicativos de interatividade serem compatíveis com outros padrões mundiais – pode ser passível de cobrança de direitos, o que desagrada fabricantes e emissoras.
Uma alternativa à segunda metade está sendo desenvolvida. O prazo previsto é até o final de outubro. Quem toma decisões e analisa essas questões é o Forum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre, formado por governo, emissoras, grandes fabricantes de eletrônicos, acadêmicos e empresas de softwares. É aí que se montou um impasse.
Grandes fabricantes defendem que se espere até a conclusão dos problemas com licenças, para que não seja necessário atualizar nada. “É preciso resolver tudo antes. Mesmo se isso ocorrer em outubro, será necessário um período de testes. Lançar em dezembro é impossível”, diz o engenheiro de desenvolvimento da Samsung Domingos Stavridis.
Acadêmicos, empresas de software e governo, por outro lado, defendem que já seria possível lançar o Ginga, mesmo incompleto. Depois, quando o problema estivesse contornado, o usuário faria uma atualização de software.
Segundo um dos responsáveis por desenvolver o Ginga, o pesquisador Guido Lemos, da Universidade Federal da Paraíba, seria possível fazer o lançamento até o fim do ano. “Mesmo que não consigamos resolver a questão dos direitos, o que já temos permite rodar aplicações interativas”, diz. “Esse seria o caminho mais correto, para não paralisarmos o processo de adoção da TV digital”, opina o assessor da Casa Civil André Barbosa.
Concorrência derruba preço dos conversores
Começa a temporada de queda nos preços de receptores de TV digital e de guerra de pequenos contra gigantes. Depois da Proview, que lançou um modelo a R$ 299, mais dois pequenos fabricantes – Visiontec e DTI – prometem aparelhos com alta definição populares, durante a Broadcast&Cable. Os grandes fabricantes, por sua vez, contra-atacam: vão cortar custos ao embutir receptores nas TVs.
Quando a TV digital foi lançada no ano passado, em São Paulo, o receptor mais barato com saída em alta definição era o Positivo, por R$ 800. Philips e Semp Toshiba lançaram seus modelos por R$ 1.100. Resultado: segundo a Eletros, entidade que representa os grandes fabricantes, foram vendidos até agora entre 70 mil e 80 mil receptores.
Mas a coisa mudou após a Proview lançar seu modelo barato, no mês passado. “Todos os fabricantes estão buscando um modelo de R$ 299”, afirma o gerente de negócios da Visiontec, Ricardo Minari. “Queremos derrubar o preço para vender muito”, diz o gerente para a América Latina da empresa espanhola DTI, Mauro Almeida.
A queda de preços também chegou aos grandes fabricantes. Um decodificador da Semp Toshiba com saída em alta definição custa hoje R$ 399 na Americanas.com. Um modelo semelhante da Philips sai por R$ 700 na mesma loja.
Entretanto, segundo o vice-presidente de novos negócios da Samsung, Benjamin Sicsu, o preço mínimo que os grandes conseguem chegar hoje ao consumidor é de R$ 500. “Os componentes ficaram mais baratos. Mas é mais complicado para a gente fazer acordos com lojistas para diminuir a margem de lucro deles, como fazem os pequenos.”
Uma solução que os grandes vêem é embutir os receptores nas TVs, o que derrubaria o custo final do conversor para R$ 200. “A concorrência é boa. Os fabricantes estão trabalhando na redução. E a integração deve ser a saída”, diz o coordenador de áudio e vídeo da Eletros, Carlos Goya.
"O Ginga é um excelente produto para o Natal"
GUIDO LEMOS, co-desenvolvedor do Ginga
Por que a interatividade ainda não está disponível?
Em dezembro, quando a TV digital estreou, as emissoras e os fabricantes se mobilizaram para ter áudio e vídeo. Na prática, os conversores só ficaram prontos na época. Nós, da academia, e as empresas de software só pudemos começar a testar aplicações interativas quando o aparelho ficou pronto. Na época também descobrimos esse problema de licenças no Ginga. Tínhamos só parte do software que poderia ser usada. Não tinha sentido implementar comercialmente assim. Mas agora estamos tendo uma ótima resposta (com essa metade do programa).
O Ginga poderia ser lançado logo?
Sim. A idéia que estamos discutindo no Fórum é utilizar, nos decodificadores, essa versão que já está aí, na qual foram desenvolvidos os testes das emissoras. No ano que vem, quando se resolver a questão do Java (a outra metade do software), é só instalar a versão final. Seria como atualizar a versão o Windows XP para o Vista. A versão atual só precisa de alguns ajustes. Em poucos meses já dá para colocar no mercado.
Essa discussão deve demorar?
Não. Devemos decidir isso nas próximas semanas.
Se for aprovado, os fabricantes já podem começar a fazer decodificadores com Ginga?
Sim. O software já está pronto. Entra em uma fase de teste mais pesado, para validar a norma. Passada essa fase de testes, já dá para começar a vender. Esse é um excelente produto para o Natal.
Há ainda a outra alternativa: lançar o software completo. O prazo para que a questão dos direitos se resolver é em outubro...
Sim. Mas é uma questão de quanto tempo irá levar para que (essa alternativa) possa ser efetivamente implementada. Chegamos num momento em que as empresas já estão mostrando seus produtos com Ginga. Eles querem vender. É uma dinâmica de mercado. Você precisa de dinheiro para compensar o investimento. E isso o Fórum não controla. É melhor a gente tentar organizar a entrada no mercado. A interatividade pode ser um gatilho para a TV digital. Até o final do ano, cidades importantes vão estrear transmissões, o preço dos decodificadores está caindo absurdamente. A coisa tende a se popularizar. É melhor planejar do que virar bagunça.
Pelas discussões do fórum, caminha-se para essa solução?
É uma discussão polêmica. As empresas de software, que sãodo mundo da informática, acham natural atualizar software. Os fabricantes de TVs, que nunca fizeram isso, ficam com medo. Eles pensam: “Coloquei o aparelho na casa do sujeito e depois quanto vai me custar para a atualização. Se o usuário não souber fazer, quem vai fazer?”
Quando teremos decodificadores com Ginga?
Em dezembro teremos, com aprovação ou não do Fórum. Mas quem vender o aparelho fora da norma tem de ser responsável para permitir a atualização.